Aviso aos navegantes: esse post é possivelmente panfletário, reacionário e lingüístico (com trema!) até a raiz dos cabelos. Se vocês escolherem ler até o final, arquem com as conseqüências. Não vou tolerar comentários cretinos por aqui. Não digam que eu não avisei.
Fazia tempo já que eu queria escrever sobre a reforma ortográfica. Desde que se começou a falar sobre isso, ou seja, muito antes de ela entrar em vigor. Mas eu não conseguia pensar em nada inspirado pra falar sobre o assunto, nada que demonstrasse com parcimônia o equívoco que o acordo representa, não só em termos de política, mas lingüisticamente falando, de um ponto de vista científico. O problema é que, assim como no caso da lei dos estrangeirismos, essa mania que os políticos têm de se juntar com meia dúzia de puristas normativistas chauvinistas pra querer mandar na lingua(gem), sem nem consultar um mísero cientista da área, me irrita tanto, mas tanto, que tudo o que eu consigo é vomitar um trilhão de impropérios raivosos - e aí a argumentação fica feia. Me pergunto por que todo mundo (não só políticos, qualquer falante) acha que tem o direito de dar pitaco e legislar sobre a língua, sobre o que é "certo" e "errado" fazer com ela, se ninguém fica dizendo pros médicos, biólogos, advogados, bancários e toda sorte de outras profissões que há por aí o que eles devem fazer, como devem ser as leis, as incisões nas cirurgias, que tipo de tratamento prescrever, etcétera e tal. Mas a língua, ah, a língua é da pátria, a língua é do povo, bla bla blá. Nessas horas todo mundo parece um Policarpo Quaresma (por sinal, um livro que eu nunca consegui gostar, desde os tempos de colégio, apesar de ser um clássico da literatura brasileira), só faltam querer que se ensine tupi nas escolas - afinal (e nesse ponto o Policarpo tava certo), se o Brasil tem uma língua pátria, essa língua é indígena, certo? Pois bem, senhores Quaresmas: ontem, num almoço entre lingüistas, surgiu o assunto da reforma, e um dos comensais (!), um grande lingüista por sinal, falou tudo o que eu sempre quis dizer e não conseguia. E foi essa conversa, especialmente os argumentos desse cara, que me motivou a finalmente escrever sobre o assunto.
Em primeiro lugar, as pessoas não percebem que a escrita é uma convenção. A escrita não existe pra representar os sons da fala; pra isso existe um alfabeto fonético internacional. A função da escrita é outra, é um registro convencionado, é um código em certa medida dissociado da fala, e totalmente artificial. Pra quem não acredita na artificialidade da escrita, pense que existem até hoje sociedades ágrafas. Pense também nas escritas hieroglíficas e ideográficas. Pense, por fim, que as crianças, ao contrário do que todo mundo gosta de achar, aprendem a falar por uma predisposição genética, e não porque alguém ensina. Ninguém ensina uma criança a falar, a menos que ela tenha algum distúrbio fonoaudiológico, um problema neurológico ou alguma síndrome genética que afete a linguagem; caso contrário, antes de aprender a amarrar o sapato os pitocos já tão falando pelos cotovelos. Agora, pensem no trabalho que uma criança tem pra aprender a ler e escrever; pensem nas horas que as professoras gastam ensinando, revisando, ensinando de novo, pensem no tempo de treinamento que essa aprendizagem requer. É completamente diferente! E a conclusão que se tira dessa simples observação é que falar e escrever são duas coisas completamente diferentes, ainda que ambas estejam associadas à linguagem. Assim sendo, e visto que a escrita não tem como propósito representar os sons da fala, alterar a ortografia para que ela se conforme às mudanças de pronúncia observadas no uso simplesmente não é lógico.
Ainda não estão convencidos da convencionalidade da escrita? Ok, vamos lá. Pensem um pouco no inglês. Pensem na escrita do inglês. Pensem se a escrita do inglês representa a pronúncia das palavras. A resposta é não! A ortografia inglesa foi fixada há muito, muito tempo atrás; a pronúncia das palavras foi mudando ao longo do tempo, e os lingüistas inclusive estudaram bastante algumas dessas mudanças. O great vowel shift é um exemplo, todas as vogais da língua foram anteriorizadas pelos falantes - mas ninguém mexeu na ortografia pra tentar "correr atrás". O mesmo ocorre com o francês e mais um monte de outras línguas. A impressão que dá é que os caras "de lá" se deram conta, ou simplesmente aceitaram o fato, de que as línguas mudam no tempo e no espaço. E não é só a pronúncia que muda: a morfologia e a sintaxe também. Pois então notem a contradição: os mesmos gramáticos que apóiam a reforma ortográfica "porque temos que adequar a escrita ao uso atual", empurram goela abaixo da gente a sintaxe de Camões e Machado de Assis, "porque os clássicos são o correto"! Abaixo o trema, mas sim à ênclise, à mesóclise, ao sujeito oculto!
Ah, e o trema... Todo mundo tá achando lindo extirpar o trema das nossas vidas. Pois eu acho uma bobagem! E não é porque eu acho bonitinhos os dois pontinhos não; tampouco é conservadorismo da minha parte. Tem coisas, como o acento diferencial, que dá pra gente se virar sem; muita gente não diferencia na grafia o "pára" verbo e o "para" preposição, mas todo mundo tira (ou ao menos devia tirar) de letra pelo contexto. Agora, o trema é um diacrítico útil. Talvez eu ache isso porque escrevo a palavra "lingüística" e suas derivadas umas mil vezes por dia. Mas brincadeiras à parte, o trema é, de fato, muito eficaz pra diferenciar as pronúncias - pensem numa criança aprendendo a ler, dizendo "linguiça" em vez de "lingwiça" e "pregwiça" em vez de "preguiça". E cá pra nós, se o acordo ortográfico é pra acompanhar a modernização da pronúncia das palavras, me digam quem aí anda dizendo "consequência" em vez de "conseqwência" pra quererem levar o trema embora!
Quanto ao lado político da reforma, honestamente, é preocupante. Não analisei os itens da reforma em detalhe ainda, mas o que eu pude perceber do pouco que eu vi é que a nossa reforma na verdade é um grande "adote a ortografia portuguesa". Bom, ao menos lendo os jornais cheios de "ideia" eu me sinto como se estivesse lendo Saramago - por sinal, um grande crítico dos brasileiros, que "assassinam diariamente o idioma português". Mas e quem disse que no Brasil se fala português? No Brasil se fala uma língua que é parecida com português, assim como espanhol e italiano se parecem, mas não são a mesma língua, são apenas originadas na mesma fonte - o latim. A língua que a gente fala no Brasil bebeu na mesma fonte latina, se originou do português europeu, mas o contato com as línguas indígenas, africanas e de todos os povos imigrantes deu numa coisa diferente. Diferente, sim, vai conversar com um português pra ver. As palavras podem até ser parecidas, mas sintaxe, semântica, prosódia, pronúncia, são muito diferentes. Como espanhol e italiano são diferentes entre si. As pessoas se iludem, mas não é diferente conversar com um espanhol e com um português (pra quem é do sul, como eu, falar com um hispanohablante é até mais fácil). A gente aqui não fala português; a gente fala o que, no meio acadêmico, se chama de português brasileiro. Mas bem podia chamar só "brasileiro". Com a reforma, nós e todos os outros países que falam línguas oriundas do português acabam voltando a ser, simbolicamente, colônias. É uma farsa achar que existe unidade, que se fala a mesma língua aqui e em Goa, no Timor, em Moçambique, Angola, Cabo Verde, Portugal... Cada uma dessas línguas teve influências diferentes e mudou pra lados diferentes. Querer homogeneizar isso é como querer recolar o continente americano ao africano "porque era assim antigamente".
E tem mais: se engana quem pensa que se não tivesse havido influência dos imigrantes, africanos e indígenas a gente ainda falaria como em Portugal; as línguas mudam no tempo, independente de contato lingüístico. E a influência pode vir de vários lados - vide o caso dos estrangeirismos. Não vou entrar no mérito dessa questão aqui (dava outro post igualmente imenso), mas vejam como é engraçado ninguém estranhar que a gente tenha abajur, batom, convescote, chofer, etc no nosso dicionário, mas hot dog não pode, é coisa do demo! Um dia vai se escrever rotidogui e ninguém vai nem se dar conta de onde veio - do mesmo jeitinho que ninguém se toca que as tais palavrinhas que eu mencionei vieram do francês, quando a França ocupava o lugar de prestígio que hoje é dos Estados Unidos. Ou então sejamos coerentes e vamos chamar o futebol, a paixão nacional, de pedilúdio, ludopédio ou pebol.
Com isso tudo vem a questão da língua pátria, a língua como patrimônio do povo (o famoso "uma pátria, uma língua"). Muita gente bate no peito pra falar da língua como amálgama nacional, mas se muda de região ou mesmo de estado sai falando que "ali todo mundo fala cantado", que "insuportável esse chiadinho que eles falam", ou o curto e grosso "credo, que povo que fala tudo errado". Ou então, mesmo que não emita juízos de valor, ainda assim se vê apertado pra entender o que os "locais" estão falando. E esse não entender engloba pronúncia, sintaxe, léxico... O mesmo desconcerto que a gente sente quando fala com um português. Se os nordestinos (tipicamente, os baianos) tendem a pronunciar a vogal pré-tônica mais aberta do que o povo do sul, então defesa, na ortografia de lá, devia se escrever "défesa". Se eles fazem assimilação regressiva da nasal, banana devia ser "bãnana". E o mas aqui no sul tinha que se escrever "mãs", e o famoso né, aqui em Porto Alegre, tinha que virar "néam".
Ou seja: por qualquer lado que se olhe, a coisa não funciona. Ou melhor, vai funcionar, porque a mídia abraçou e todo mundo tá empolgado. Em breve eu mesma vou aprender e escrever a minha tese usando a nova ortografia. Mas é uma medida despropositada, política, lingüística e cientificamente. E não me venham os conformistas dizer que tudo bem, porque o acordo só afeta 0,5 por cento do nosso vocabulário. Pior ainda! Pra que mudar as coisas, ter essa trabalheira toda, se efetivamente quase nada vai, de fato, mudar? Pra mim (e me desculpem, vou apelar pra velha piada dos colonizados) só tinha mesmo que ser coisa de português.
Em primeiro lugar, as pessoas não percebem que a escrita é uma convenção. A escrita não existe pra representar os sons da fala; pra isso existe um alfabeto fonético internacional. A função da escrita é outra, é um registro convencionado, é um código em certa medida dissociado da fala, e totalmente artificial. Pra quem não acredita na artificialidade da escrita, pense que existem até hoje sociedades ágrafas. Pense também nas escritas hieroglíficas e ideográficas. Pense, por fim, que as crianças, ao contrário do que todo mundo gosta de achar, aprendem a falar por uma predisposição genética, e não porque alguém ensina. Ninguém ensina uma criança a falar, a menos que ela tenha algum distúrbio fonoaudiológico, um problema neurológico ou alguma síndrome genética que afete a linguagem; caso contrário, antes de aprender a amarrar o sapato os pitocos já tão falando pelos cotovelos. Agora, pensem no trabalho que uma criança tem pra aprender a ler e escrever; pensem nas horas que as professoras gastam ensinando, revisando, ensinando de novo, pensem no tempo de treinamento que essa aprendizagem requer. É completamente diferente! E a conclusão que se tira dessa simples observação é que falar e escrever são duas coisas completamente diferentes, ainda que ambas estejam associadas à linguagem. Assim sendo, e visto que a escrita não tem como propósito representar os sons da fala, alterar a ortografia para que ela se conforme às mudanças de pronúncia observadas no uso simplesmente não é lógico.
Ainda não estão convencidos da convencionalidade da escrita? Ok, vamos lá. Pensem um pouco no inglês. Pensem na escrita do inglês. Pensem se a escrita do inglês representa a pronúncia das palavras. A resposta é não! A ortografia inglesa foi fixada há muito, muito tempo atrás; a pronúncia das palavras foi mudando ao longo do tempo, e os lingüistas inclusive estudaram bastante algumas dessas mudanças. O great vowel shift é um exemplo, todas as vogais da língua foram anteriorizadas pelos falantes - mas ninguém mexeu na ortografia pra tentar "correr atrás". O mesmo ocorre com o francês e mais um monte de outras línguas. A impressão que dá é que os caras "de lá" se deram conta, ou simplesmente aceitaram o fato, de que as línguas mudam no tempo e no espaço. E não é só a pronúncia que muda: a morfologia e a sintaxe também. Pois então notem a contradição: os mesmos gramáticos que apóiam a reforma ortográfica "porque temos que adequar a escrita ao uso atual", empurram goela abaixo da gente a sintaxe de Camões e Machado de Assis, "porque os clássicos são o correto"! Abaixo o trema, mas sim à ênclise, à mesóclise, ao sujeito oculto!
Ah, e o trema... Todo mundo tá achando lindo extirpar o trema das nossas vidas. Pois eu acho uma bobagem! E não é porque eu acho bonitinhos os dois pontinhos não; tampouco é conservadorismo da minha parte. Tem coisas, como o acento diferencial, que dá pra gente se virar sem; muita gente não diferencia na grafia o "pára" verbo e o "para" preposição, mas todo mundo tira (ou ao menos devia tirar) de letra pelo contexto. Agora, o trema é um diacrítico útil. Talvez eu ache isso porque escrevo a palavra "lingüística" e suas derivadas umas mil vezes por dia. Mas brincadeiras à parte, o trema é, de fato, muito eficaz pra diferenciar as pronúncias - pensem numa criança aprendendo a ler, dizendo "linguiça" em vez de "lingwiça" e "pregwiça" em vez de "preguiça". E cá pra nós, se o acordo ortográfico é pra acompanhar a modernização da pronúncia das palavras, me digam quem aí anda dizendo "consequência" em vez de "conseqwência" pra quererem levar o trema embora!
Quanto ao lado político da reforma, honestamente, é preocupante. Não analisei os itens da reforma em detalhe ainda, mas o que eu pude perceber do pouco que eu vi é que a nossa reforma na verdade é um grande "adote a ortografia portuguesa". Bom, ao menos lendo os jornais cheios de "ideia" eu me sinto como se estivesse lendo Saramago - por sinal, um grande crítico dos brasileiros, que "assassinam diariamente o idioma português". Mas e quem disse que no Brasil se fala português? No Brasil se fala uma língua que é parecida com português, assim como espanhol e italiano se parecem, mas não são a mesma língua, são apenas originadas na mesma fonte - o latim. A língua que a gente fala no Brasil bebeu na mesma fonte latina, se originou do português europeu, mas o contato com as línguas indígenas, africanas e de todos os povos imigrantes deu numa coisa diferente. Diferente, sim, vai conversar com um português pra ver. As palavras podem até ser parecidas, mas sintaxe, semântica, prosódia, pronúncia, são muito diferentes. Como espanhol e italiano são diferentes entre si. As pessoas se iludem, mas não é diferente conversar com um espanhol e com um português (pra quem é do sul, como eu, falar com um hispanohablante é até mais fácil). A gente aqui não fala português; a gente fala o que, no meio acadêmico, se chama de português brasileiro. Mas bem podia chamar só "brasileiro". Com a reforma, nós e todos os outros países que falam línguas oriundas do português acabam voltando a ser, simbolicamente, colônias. É uma farsa achar que existe unidade, que se fala a mesma língua aqui e em Goa, no Timor, em Moçambique, Angola, Cabo Verde, Portugal... Cada uma dessas línguas teve influências diferentes e mudou pra lados diferentes. Querer homogeneizar isso é como querer recolar o continente americano ao africano "porque era assim antigamente".
E tem mais: se engana quem pensa que se não tivesse havido influência dos imigrantes, africanos e indígenas a gente ainda falaria como em Portugal; as línguas mudam no tempo, independente de contato lingüístico. E a influência pode vir de vários lados - vide o caso dos estrangeirismos. Não vou entrar no mérito dessa questão aqui (dava outro post igualmente imenso), mas vejam como é engraçado ninguém estranhar que a gente tenha abajur, batom, convescote, chofer, etc no nosso dicionário, mas hot dog não pode, é coisa do demo! Um dia vai se escrever rotidogui e ninguém vai nem se dar conta de onde veio - do mesmo jeitinho que ninguém se toca que as tais palavrinhas que eu mencionei vieram do francês, quando a França ocupava o lugar de prestígio que hoje é dos Estados Unidos. Ou então sejamos coerentes e vamos chamar o futebol, a paixão nacional, de pedilúdio, ludopédio ou pebol.
Com isso tudo vem a questão da língua pátria, a língua como patrimônio do povo (o famoso "uma pátria, uma língua"). Muita gente bate no peito pra falar da língua como amálgama nacional, mas se muda de região ou mesmo de estado sai falando que "ali todo mundo fala cantado", que "insuportável esse chiadinho que eles falam", ou o curto e grosso "credo, que povo que fala tudo errado". Ou então, mesmo que não emita juízos de valor, ainda assim se vê apertado pra entender o que os "locais" estão falando. E esse não entender engloba pronúncia, sintaxe, léxico... O mesmo desconcerto que a gente sente quando fala com um português. Se os nordestinos (tipicamente, os baianos) tendem a pronunciar a vogal pré-tônica mais aberta do que o povo do sul, então defesa, na ortografia de lá, devia se escrever "défesa". Se eles fazem assimilação regressiva da nasal, banana devia ser "bãnana". E o mas aqui no sul tinha que se escrever "mãs", e o famoso né, aqui em Porto Alegre, tinha que virar "néam".
Ou seja: por qualquer lado que se olhe, a coisa não funciona. Ou melhor, vai funcionar, porque a mídia abraçou e todo mundo tá empolgado. Em breve eu mesma vou aprender e escrever a minha tese usando a nova ortografia. Mas é uma medida despropositada, política, lingüística e cientificamente. E não me venham os conformistas dizer que tudo bem, porque o acordo só afeta 0,5 por cento do nosso vocabulário. Pior ainda! Pra que mudar as coisas, ter essa trabalheira toda, se efetivamente quase nada vai, de fato, mudar? Pra mim (e me desculpem, vou apelar pra velha piada dos colonizados) só tinha mesmo que ser coisa de português.