Ontem, chuva ou não chuva, fui passear com uma amiga de Campinas que tava por aqui. Nos encontramos aqui no shopping perto de casa, depois resolvemos ir pro Center 3 ver a feira de artesanato. Aí na hora de voltar pra casa eu tava sem crédito no bilhete único e tinha duas notas de 20 na carteira. Entrei no ônibus, alcancei uma das notas pro cobrador, e ele, sem nem olhar pra mim, murmurou "troco máximo dez reais". Eu fiquei com cara de pateta, achei que não tinha ouvido direito, lancei uma pergunta-eco pro cara e ele, no mesmo tom e de novo sem olhar pra mim, resmungou "troco máximo dez reais". Comecei a rir e disse "tá, eu só tenho uma nota de 20, que que eu faço, volto pra casa a pé?". "Ah, fala ali com ele" - ele, no caso, era o motorista.
Sim, queridos leitores, tive que pedir carona pro motorista! Que nem uma mendiga, como se eu não tivesse dinheiro pra pagar o bendito ônibus. Tava na pista desde cedo, vestidinho novo, salto, chuva, frio, e eu pedindo carona pro motorista do coletivo. Fiquei puta da cara, cheguei no condutor do veículo e falei "tá, e aí cara, eu só tenho vinte reais na carteira, o carinha ali me disse que o troco máximo é dez, e aí?". "Vai descer aonde, moça?", "na Angélica", "fica aí pela frente então".
Pois é. Eu desci pela frente. Nada contra, em princípio. O que me rachou a cara foi a humilhação de ter que pedir carona, porque um cobrador mal-educado que não deve comer ninguém há um bom tempo não se deu ao trabalho de ver se ele tinha ou não troco pra me dar. Antes de descer perguntei pro motorista, que era bem gente boa, desde quando isso era praxe, porque eu me lembro de já ter dado cinquentão no Butantã-USP e nem ter rolado cara feia do cobrador. Então agora a gente além de se preocupar em ter dinheiro pro ônibus ainda tem que se preocupar em ter notas baixas. Tem que comprar um chiclete antes de ir pro ponto de ônibus pra trocar o dinheiro.
Foi o que eu tive que fazer hoje de manhã. Acordei quinze pras cinco da madrugada, pra sair às seis, pra passar na padaria e comprar uma balinha pra trocar os vinte. Porque ontem de noite não consegui carregar o bilhete único em lugar nenhum, e não queria correr o risco de chegar atrasada na primeira monitoria do ano caso outro cobrador babaca não quisesse me dar troco pros vinte e me fizesse descer. Ainda pra piorar um pouco a situação, além do frio e do escuro na rua a droga da caixa da padaria também não trocou os meus vinte, porque a padaria 24 horas tava abrindo naquele momento (o que me levou a pensar se o conceito de 24 horas do dono da padaria é o mesmo que o meu). Tive que ir na loja de conveniência do posto de gasolina, e ai que o cara não trocasse meu dinheiro, porque eu tava soltando fogo pelas ventas de braba. Finalmente, às seis e vinte da manhã, eu consegui comprar as balas trident sabor canela que eu não tava precisando, gastando absurdos dois reais pra trocar meus vinte reais pra pegar o ônibus. Mas não vai ficar por isso mesmo. A SPTrans vai receber um e-mail meu no próximo final de semana comentando o fato, sim senhores. E, claro, na volta da USP recarreguei meu bilhete único.