Eu devia saber que hoje não seria um dia normal no momento em que acordei. Claro, provavelmente eu teria percebido se não tivesse acordado tão tarde e tivesse, portanto, tido tempo de prestar atenção no mundo que me cerca. Meus planos de lavar roupa, arrumar a casa e dar uma estudada antes de fazer almoço foram pro brejo. Mal deu tempo de me arrumar, almoçar rápido na rua e pegar o ônibus.
Aliás, minto. Depois do almoço eu ainda saí em peregrinação Cardoso afora, tentando achar um lugar pra recarregar meu bilhete único do ônibus. Não fui feliz. Andei lééééguas e nada. Acabei pegando ônibus lááá em cima, no ponto da PUC. Achei que tava atrasada, o Butantã demorou décadas pra passar, mas deu tudo certo no final, cheguei cedo pra burro na USP. E aí começou a insanidade: todos, eu disse TODOS os banheiros do prédio estavam interditados pra limpeza. Pra piorar, tá rolando um congresso de não-sei-o-que por esses dias, então o índice de mulheres desesperadas pra passar um batom depois do almoço tava batendo na estratosfera. Imaginem o que aconteceu quando um dos banheiros finalmente abriu? Ah, pois é. Várias tias se acotovelando na frente do espelho e uma megafila pra poder jogar fora toda a água que eu tomei de um gole só, na pressa, na hora do almoço. E quando finalmente chegou a minha vez, a minha porta tava quebrada!! Era uma daquelas portas de plástico tipo sanfona, porque é o espaço reservado pra cadeirantes. Só que a sanfona tava quebrada em 4 partes diferentes, então tinha várias frestas, pro pessoal ver tudo o que tava rolando lá dentro de vários ângulos diferentes.
Passado esse obstáculo, a aula. Fomos parar na sala errada (uma sala de alemão cheia de gatinhos), depois fomos parar na sala certa (sem gatinhos). Pra encurtar o causo: somos 6 alunos matriculados, sendo que só 4 apareceram. E o sistema do semestre vai ser seminário em cima de seminário. Textos fudidíssimos sobre alçamento, controle e ECM. É, exatamente aquela porra que eu nunca consegui entender! Eu vou ter que apresentar um texto sobre o Quechua, o da Concha Castillo sobre ECM (os dois no mesmo dia!), o texto do Hornstein sobre movimento e controle (que "só" fundou uma corrente da teoria) e, pra encerrar o semestre com chave de ouro, duas aulas pra apresentar o Landau. Sim, duas aulas. E aí eu entendi por que o Marcello disse, no início da aula, que tava com pena da gente. A parte boa é a cara que as pessoas fazem quando ouvem "doutoranda com o Jairo". Já nem me espanto mais. Ou me olham com cara de quem tá olhando pra um maluco, ou com cara de quem tá olhando pra um supergênio, ou então fazem aquela cara de "bah, sifu" (aliás, essa última é a minha preferida).
Mas aí, como o semestre todo é seminário e hoje ninguém tinha nada pra apresentar, a aula acabou bem cedo. E eu decidi ir pro shopping carregar meu cartão de passe na lotérica. A fila tava quase pior que a do banheiro da USP. Mega-sena acumulada e a ricaçarada do bairro toda amontoada na fila pra jogar. Ok, eu também aproveitei o embalo e joguei, mas fiquei pensando que se uma daquelas peruas cheias de jóias ganhar é porque o mundo é mesmo injusto.
Saí do shopping pensando nisso e fui pro supermercado fazer umas comprinhas. No caminho tem uns edifícios muito opulentos, tudo muito sofisticado demais. Tem também duas escolas enormes, superaristocráticas, e eu continuei pensando sobre o mundo injusto, a dificuldade de ter que andar quilômetros dias a fio pra carregar o cartão, a mega-sena e o que eu faria com 12 milhões. Será que eu guardaria tudo pra cortar o cabelo? Anyway, saí do super e tomei o rumo de casa, cheia de sacolas, bolsa pesada, cansada de ficar pra cima e pra baixo o dia todo, puta da cara de ter tido que andar tanto com tanto peso, essas coisas de final do dia. E eis que eu vejo vindo na minha direção um husky siberiano enorme, o maior que eu já vi. Lindo, pelo preto em cima e branco embaixo, olhos azuis de doer. Lindo, o cachorro. Aí olhei pro dono do cachorro. Lindo, cabelo preto, olhos azuis de doer. Lindo. Mas lindo mesmo, lindo demais, fiquei até sem jeito quando ele ia passando por mim. Aí quando ele tava terminando de passar por mim e a minha vida tava quase voltando ao normal (às reclamações, no caso) depois daquela visão do paraíso, o cara vira e diz "nossa! que gata!!". Com todas as ênfases que vocês possam imaginar.
E aí eu descobri que o mundo não é nada injusto. O mundo é lindo, moreno, tem olhos azuis e um husky preto. E da próxima vez eu juro que viro de volta e ofereço meu número de telefone!!