Tô de volta pras capitar. Tenho que preparar um handout pra reunião com o Jairo às cinco da tarde, ou seja, não vou poder cair na cama valendo pra recuperar os ossos da longa viagem esmagada pela tia não tão gorda mas muito espaçosa que viajou do meu lado.
[Recado pra Ana: vai pegar uma estradinha interestadual por 14 horas num semileito fajuto pra ver o que é tosqueira, mulher! Destaque da viagem: duas tias que ficavam brincando de catar latinhas de refri e colocar num sacolão pra levar dentro do ônibus.]
Mas nem só de tosqueira vive o mundo, então vamos aos fatos: eu amo ir pra Marau. Porque lá tem a família, tem o pintinho (que também é família, mas é especial), e tem também a melhor cabeleireira do mundo, que mesmo tendo que atender mil formandas ensandecidas deu uma espremida no horário pra reestabelecer as minhas melenas. Nessas horas eu até me sinto importante.
Cabelos cortados no sábado, comprinhas com as titias, sorvetinho com as primas, fim de tarde na praça com todo o mundo pra tomar um mate e pros guris correrem à vontade, e de noite churrascão. Na casa do meu tio que nem ia ficar em casa porque uma das formandas ensandecidas convidou ele pra festa. Até ia pegar uma baladinha com ele de noite, pra honrar a tradição, mas minha lente de contato rasgou e eu não sei ir pra balada de óculos. Aí chegamos na casa do meu tio pra armar o churrascão e os amigos dele tavam lá vendo o jogo do Grêmio. Entre eles, um old flame de 12 anos atrás. Ainda bem que na hora H eu resolvi trocar de roupa, tirar a bermuda bagaceira que eu tinha vestido e colocar uma coisa mais decente. Ainda bem sim, porque quando a namorada dele não tá por perto o olho dele não sai de cima de mim, e a namorada dele não tava por perto.
Ver esse cara sempre me faz pensar como a vida é filhadaputa com a gente às vezes. Eu fui a fim dele durante uns cinco anos, numa época em que eu ainda não conseguia saber quando um cara tá interessado ou não em mim. No carnaval de 2000, o último que eu pulei em Marau, a gente se encontrou no meio do clube e pintou um puta clima. Mas é claro que a minha família inteira tava lá e qual é o cara que vai chegar numa guria desse jeito, ainda mais sendo ex-subordinado do tio e atual subordinado da tia, ambos presentes no recinto. Não rolou. Depois disso, conheci o Carlinhos e aí deixei pra lá. Nunca vou esquecer a cara que ele fez quando me viu com o Carlinhos pela primeira vez. Foi de cortar o coração. Também nunca vou esquecer a cara que nós dois fizemos na balada do sábado de aleluia de 2004, quando eu apareci novamente solteira na cidade e ele finalmente tinha arranjado uma namorada. Por alguns momentos naquela noite achei que ele ia jogar a guria mezanino abaixo e pular em cima de mim. Depois voltei com o Carlinhos, terminei com o Carlinhos, blablablá, e ele segue com a mesma namorada. E toda vez que a gente se encontra é o mesmo clima de "ah, aquele carnaval". Tinha tudo pra ter sido um lance legal, mas o timing da gente foi péssimo a vida inteira. Puta sacanagem.
Mas o churrasquinho tava bom. Caipirinha, uísque 12 anos do bar do meu tio, carne carne carne pra matar as saudades, pintinho no colinho, coisa boa. Até o meu pai começar a se sentir mal. Uma dorzinha que começou na quarta, parecia dor muscular, tava tomando cataflan. Voltamos pra casa da minha tia e a dor só aumentava. Corre pro pronto socorro às três da manhã, um mau atendimento do caralho. Formigamento na mão, dor no peito, tinha toda cara de ser problema no coração. E o médico plantonista vai e aplica uma injeção pra dor e deu. Dava pra rir da situação, se não fosse trágico. A dor passou, ontem de manhã meu pai pegou a estrada pra Porto e eu fiquei em Marau pra vir direto pra Sampa de tarde. Mas fiquei com um aperto desgraçado no peito, que nem a companhia e os afagos do pintinho conseguiram acalmar.
No fim, ontem de noite ele acabou indo pra Santa Casa, após muita insistência da mãe. Felizmente não é nada no coração; o que ele tem se chama herpes soster, vulgo "cobreiro", uma doença que se manifesta em situações de estresse. Funciona assim: o vírus da varicela (catapora, chame como quiser) fica incubado no organismo pra sempre, depois que a gente tem a doença. Aí quando a gente se estressa muito o vírus "acorda" e surge uma versão hardcore da catapora: saem uns vergões no corpo que deixam as veias todas em alto-relevo, e o meu pai disse que dói MUITO, com ênfase, como se um gato estivesse te arranhando por dentro. E olha que o meu pai não é de se mixar pra dor! Não se sabe quanto tempo demora pra passar, e os médicos disseram que a dor residual pode ficar pra sempre.
Moral da história 1: cuidado, crianças que já tiveram varicela: não se estressem que o bicho pega.
Moral da história 2: fiquei ontem o dia todo morrendo de preocupação pelo meu pai. Achei que só ia começar a me estressar com doenças dos dois daqui a uns vinte anos, mas pelo visto é melhor começar a preparar o espírito desde já.