Então que depois de amanhã faz um ano que eu embarquei pra Utrecht. (pausa para choro convulsivo de saudades) Logo, faz quase um ano que estou morando novamente na casa dos meus pais. Pra quem não sabe: eu voltei de Utrecht em maio e resolvi ficar aqui até terminar a tese, já que não teria mais bolsa. O plano era ficar aqui uns três meses, terminar a tese no prazo, e no segundo semestre me bandear pra São Paulo pra arrumar um emprego numa particular ou um pós-doc e viver feliz para sempre com o Sr. Anônimo, que está lá fazendo seu doutorado feliz, contente e remunerado.
O problema é que a tese, que devia ter sido depositada no dia 02 de julho, acabou sendo depositada no dia 31 de outubro, no último minuto da prorrogação. Era depositar ou jubilar. C'est la vie.
Com defesa prevista pra 07 de dezembro, não me restava muito a fazer a não ser continuar por aqui e me inscrever em concursos pelas universidades Brasil afora. Até mandei currículo pra todas as universidades particulares que existem em São Paulo e região metropolitana e no Rio Grande do Sul. Alguma me chamou? Claro que não! Então, visto que começar um pós-doc em março de 2012 me parecia muito atraso pra quem tinha planejado começar em julho de 2011, passei a acompanhar avidamente os diários oficiais da nação. Depositei a tese já inscrita em dois concursos: um aqui na UFRGS, que ainda não aconteceu, e um na UESPI (onde?).
No dia em que eu virei a noite e terminei a tese e dormi a tarde inteira depois começou a Feira do Livro. Exatamente uma semana depois, dia 04 de novembro, embolsei quatrocentos merréis das minhas economias e fui pra lá comprar tudo o que fosse possível pra me preparar pros concursos. Resultado: um filho de uma puta bateu a minha carteira com os 400 pilas e todos os meus documentos, inclusive a identidade que eu tinha feito nova há menos de um ano. E a minha carteira nova e linda que eu tinha trazido da Holanda. Pela primeira vez na minha vida paguei por uma carteira e lá foi ela pras mãos de uma vagabunda que um dia há de queimar no fogo do inferno. Pobre tem uma sorte que vôtecontá.
Anyway, o que era pra ser um dia feliz na Feira do Livro virou um inferno dentro de uma delegacia e pendurada no telefone pra cancelar todos os cartões possíveis e imagináveis. Menos um: o da C&A, cuja fatura chegou um mês depois, cheia de compras parceladas e saques (sim, dá pra sacar dinheiro na C&A). Menos mal que não complicaram a minha vida e estornaram o valor sem discutir.
Continuei firme nos meus propósitos, estudando pros concursos. Corri nas bibliotecas, fiz xerox, aproveitei pra desenterrar todos os meus livros, que estavam encaixotados da mudança de São Paulo desde julho de 2010. Concluímos rapidamente que não tinha lugar pra eles e pros livros que já moravam aqui em casa. Empilhei, organizei e guardei do jeito que foi possível. Também tive, finalmente, um tempinho pra organizar meus utensílios domésticos, que estavam igualmente encaixotados e/ou socados nos armários da cozinha, e meu pobre guarda-roupa "de solteira", no qual não cabem todas as minhas roupas e mais as mil outras coisas que foram parar dentro dele depois que eu saí de casa. Concluímos, também rapidamente, que até teria lugar pras minhas roupas naquele guarda-roupa, se ele não estivesse caindo aos pedaços.
Corta pra dezembro. Viajei pra São Paulo pra defender a tese. Quando voltei, faltando dez dias pro concurso do Piauí, começamos a reformar o apartamento: pintar todos os cômodos, reformar toda a cozinha, fazer móveis novos pra cozinha, uma estante pros livros e um guarda-roupa e uma cômoda novos pra mim. A pintura redundou na instalação de uma zona generalizada dentro de casa: tira os livros daqui e põe pra lá que hoje ele vai pintar aqui; agora tira de lá e põe acolá porque ele vai pintar lá; hoje tu estuda no banheiro porque ele vai pintar a sala. Quer dizer: os quinze dias que eu perdi organizando os meus livros por assunto e título e tamanho e cor foram inúteis. Mas não é só apenas isso! Pra pintar o meu quarto, o pintor teve que desencostar o meu guarda-roupa da parede. E quem disse que conseguiu encostar de volta? O bendito literalmente começou a se desmanchar: caiu uma gaveta, depois caiu a outra, depois caiu uma prateleira... Acho que ficou com ciúmes porque encomendei um guarda-roupa novo que eu mesma desenhei como eu quis.
Pra encurtar um pouco o causo: estamos no final de janeiro, a reforma acabou há uns quinze dias, os móveis da cozinha chegaram na semana passada. E o meu guarda-roupa, a minha cômoda e a estante dos livros chegam depois de amanhã, exatamente um ano depois que eu embarquei pra Holanda. Espero que isso seja um sinal de que depois de um ano complicado, cheio de revezes, que eu passei meio aos trancos e barrancos sem saber que rumo a vida ia tomar, as coisas finalmente vão começar a voltar pro lugar. Mesmo que seja começando pelos livros e roupas.