Essa noite pularam a grade aqui do prédio, que não é baixa, arrombaram a porta do carro do meu pai e levaram o som. Um sonzinho mixa, mais velho que eu, nem toca mp3, malemá um cdzinho. Provavelmente cortaram o alarme, porque a gente não ouviu nada - e o meu quarto é praticamente em cima da garagem. É o segundo ato de violência e/ou roubo que eu presencio em menos de uma semana, fora os que aconteceram com conhecidos meus e eu só ouvi falar.
O cara que entrega água mineral pra gente chegou bem na hora que o meu pai descobriu o carro arrombado, e falou "ah, ainda se fosse na rua, tudo bem, porque se a gente deixa o carro na rua a gente sabe que tá sujeito, tá correndo risco. Mas dentro da garagem do prédio não tem cabimento." Errado, moço. Muito errado. Deixar o carro na rua não deveria representar um risco. Caminhar de noite por aí não deveria representar um risco. Sacar dinheiro no caixa eletrônico depois das dez da noite não deveria representar um risco. Ir assistir o jogo do time do coração às 21:45; andar no centro; morar numa casa sem grades enormes na frente, nas laterais, nos fundos, cerca elétrica, arame farpado, alarmes, cachorros vorazes e vigia na porta; usar um anel de ouro na rua; nada disso deveria representar um risco. Mas representa, e a liberdade das pessoas vai cada vez mais se encolhendo e se moldando às circunstâncias. Ninguém para pra pensar não? Todo mundo se resigna a passear no shopping e deu pra bola? Lá em São Paulo já fizeram o Cidade Jardim, que eu chamo de "A Bolha". Me pergunto se quem mora lá algum dia leu A Caverna, do Saramago; porque os criadores do complexo devem ter lido, quem sabe até usado como fonte de inspiração - o que só comprovaria que a ignorância humana definitivamente não tem limites. Imagina aqui o que não hão de inventar? Só esse ano vão ser inaugurados nem lembro quantos shoppings, fora as ampliações dos já existentes. Por mais que eu goste de passear em shopping, pra pegar um cineminha e olhar vitrine, não é normal.
Me assusta a onda de violência e impunidade, mas me assusta ainda mais que as pessoas se deixem acostumar e passem a achar que é normal viver desse jeito, nesse clima de constante insegurança; ou achem que se enfiar numa bolha é solução, pior, a única solução possível. Porto Alegre tá a um passo de virar uma Gotham City. O problema, minha gente, é que na vida real não há ninguém disposto a ser um Batman.
O cara que entrega água mineral pra gente chegou bem na hora que o meu pai descobriu o carro arrombado, e falou "ah, ainda se fosse na rua, tudo bem, porque se a gente deixa o carro na rua a gente sabe que tá sujeito, tá correndo risco. Mas dentro da garagem do prédio não tem cabimento." Errado, moço. Muito errado. Deixar o carro na rua não deveria representar um risco. Caminhar de noite por aí não deveria representar um risco. Sacar dinheiro no caixa eletrônico depois das dez da noite não deveria representar um risco. Ir assistir o jogo do time do coração às 21:45; andar no centro; morar numa casa sem grades enormes na frente, nas laterais, nos fundos, cerca elétrica, arame farpado, alarmes, cachorros vorazes e vigia na porta; usar um anel de ouro na rua; nada disso deveria representar um risco. Mas representa, e a liberdade das pessoas vai cada vez mais se encolhendo e se moldando às circunstâncias. Ninguém para pra pensar não? Todo mundo se resigna a passear no shopping e deu pra bola? Lá em São Paulo já fizeram o Cidade Jardim, que eu chamo de "A Bolha". Me pergunto se quem mora lá algum dia leu A Caverna, do Saramago; porque os criadores do complexo devem ter lido, quem sabe até usado como fonte de inspiração - o que só comprovaria que a ignorância humana definitivamente não tem limites. Imagina aqui o que não hão de inventar? Só esse ano vão ser inaugurados nem lembro quantos shoppings, fora as ampliações dos já existentes. Por mais que eu goste de passear em shopping, pra pegar um cineminha e olhar vitrine, não é normal.
Me assusta a onda de violência e impunidade, mas me assusta ainda mais que as pessoas se deixem acostumar e passem a achar que é normal viver desse jeito, nesse clima de constante insegurança; ou achem que se enfiar numa bolha é solução, pior, a única solução possível. Porto Alegre tá a um passo de virar uma Gotham City. O problema, minha gente, é que na vida real não há ninguém disposto a ser um Batman.