Então a pessoa sai de casa em cima da hora (leia-se: quinze minutos atrasada) pra sua reunião de discussão de leituras com o chefe. A pessoa está na esquina esperando pra atravessar e chegar na parada de ônibus quando avista o seu ônibus se aproximando. Ela então se concentra no semáforo, "fecha, fecha, fecha, fecha, fecha", o ônibus chega no ponto "vai, porcaria, fecha logo, vai, fica amarelo que ele pára e eu atravesso correndo e entro como sempre", duzentas pessoas entram no coletivo "pelo amor de deus fecha sua merda, ontem fechou, antes de ontem também, vai, fecha fecha feeeeech... merda!". Lá se vai o ônibus. E o sinal, claro, finalmente fecha. "Agora pode ficar aberto até amanhã, porcaria."
A pessoa tem então exatos 35 minutos pra percorrer um trajeto que normalmente não demora menos de 40. Com sorte e pouco trânsito, ambos ingredientes raros no dia-a-dia paulistano e desta que vos escreve. A pessoa então pega qualquer porcaria de ônibus, desce na Dr. Arnaldo e caminha freneticamente até a Cardeal, olhando pra trás a cada 2 segundos pra ver se consegue a façanha de pegar o ônibus que perdeu na esquina de casa. A pessoa sente que algo está estranho, mas pensa "é claro que tá estranho, eu perdi a porcaria do ônibus, eu tou atrasada pra encontrar o chefe, vou tomar um esporr..." tléc! "como assim, tléc?".
Assim. tléc! Adeus, salto da minha bota de 59,90 último par da estação passada que eu não tiro mais do pé desde que comprei. Quebrado, bem no meio. E a porcaria do Butantã USP vindo lá do outro lado da rua pra entrar na Cardeal, e a pessoa que mal consegue caminhar, quem dirá correr, quase se mata pra tentar pegar o ônibus sem terminar de destruir o salto que, literalmente, pende por um fio. Quem acha que andar de salto é uma arte devia tentar essa modalidade.
A pessoa consegue pegar o ônibus, senta, avalia os danos. Constata que é caso pra UTI. Ou, no caso, superbonder. A pessoa chega dez minutos atrasada na sala, já com a justificativa pronta na ponta da língua, só pra constatar que o chefe ainda não chegou, ou seja, ela quebrou o salto do seu sapato preferido por nada. Ok, respira, pega o telefone e liga pro colega que ficou de vir almoçar na USP trazer uma superbonder. Ele diz que desistiu do almoço. O chefe chega antes que a pessoa tenha tempo de esvaziar a bexiga que está estourando. A reunião acaba uma hora e meia depois, sem chegar a discutir os textos que deixaram ela acordada até a uma da manhã na noite anterior, gerando o atraso e a subseqüente quebra do salto do sapato preferido. A pessoa, quase se mijando, se arrasta até o banheiro praticamente pulando num pé só (felizmente, com poucas testemunhas) e constata que finalmente há papel no banheiro novamente. Infelizmente, dada a seqüência de infortúnios, a pessoa nem consegue comemorar o fato.
A pessoa se dirige então ao departamento e implora a um dos funcionários por uma superbonder. Não tem. Ela então pega a cola branca, entope o salto, gruda, seguuuuuuuura, e enrola uma fita durex em volta. "Assim é garantido que funciona", afirma o funcionário. Tudo isso se desenrola sob o olhar atento do chefe, que justo hoje resolveu checar seus e-mails ali mesmo. "Ok, pelo menos está consertado", pensa ingenuamente a pessoa, que após dar dois passos na rua em direção à fila do banco, na qual haveria de permanecer por mais de duas horas, sente o salto descolando de novo. A pessoa manca até o banco, manca na fila, e após cumprir (quase) todas as suas obrigações financeiras, manca de volta pra FFLCH pra pegar sua mochila e, finalmente, manca até o Eldorado e compra um sapato novo que lhe custa boa parte do que ela pretendia economizar esse mês.
Nunca, nunca tinha me acontecido isso. Treze anos em cima do salto e nada. Até hoje. Vai ver o universo sabe que ultimamente pouca coisa tem o poder de me abalar. Especialmente quando eu sento na frente do computador e encontro tanta coisa que me faz sorrir.