quarta-feira, 4 de julho de 2007

São Paulo, my love

Voltei de São Paulo ontem à noite, depois de horas e horas em Congonhas, atraso de aeronave e problema técnico na aeronave quando eu já tava dentro dela. Voltei de São Paulo convencida de que fiz a coisa certa em ir pra lá, mesmo com a via-crucis aérea que eu provavelmente vou ter que enfrentar toda bendita e santa vez que decidir voltar pro Sul. Isso, ou 18 horinhas dentro de um ônibus Regis Bittencourt afora. Prefiro o aeroporto.

A viagem, todo mundo sabe, foi pra procurar um lugar pra morar. O que pouca gente sabe (ao menos eu não sabia) é que tá difícil pra caralho achar apartamentos pra alugar na cidade. Ou a gente encontra um quadruplex nos Jardins por R$9838237564858, ou então uma kitchenete (kitinete, quitinete, kitchineti... há várias opções, hehehe) pra dividir com mais 5 pessoas. No ó da zona leste. Um abuso. Passou terça, quarta e quinta e nada. Não tinha achado nada, nem pensão. Até que na sexta de manhã finalmente a minha fama de sortuda falou mais alto e eu finalmente consegui entrar em contato com uma corretora pra ver um apê que eu tinha visto na internet depois da entrevista do doutorado, em maio, e tinha achado perfeito: mobiliado, com fogão e geladeira e aquecimento a gás no chuveiro, com ônibus na esquina pra me levar pra USP. Dentro dos preços que eu vi, era o melhor custo-benefício. Eu digo que tenho sorte, e digo mais: quando eu enfio uma coisa na cabeça ninguém mais tira. Eu sabia que aquele era o apartamento. E foi mesmo.

Agora, o que eu não sabia é que a Viviane Senna mora no prédio do lado, muito menos que o Jô Soares mora na esquina e que o Fernando Henrique Cardoso mora há duas quadras de distância. Isso que eu saiba, né? Mas imagina, pode ter muitas outras celebridades lá na vizinhança! Ok, ok, quem me conhece sabe que eu não pago pau pra celebridades de nenhum tipo (nem as televisivas, nem os escritores famosos, nem o Chomsky). Mas pô, morar do lado e não dar bola também é pedir demais da pessoa, a gente tem que ter um mínimo de empolgação e "humanidade" nessas horas.

(Já aviso que alugo a minha janela pra espionagem de famosos e posso ciceronear os interessados em um tour pelo bairro visando a caça de celebridades. Por um preço não tão módico, é claro. Lingüistas também precisam sobreviver, e bolsa só deus sabe quando.)

Aliás, não. Ontem me ligaram da pós avisando que a entrevista pra bolsa vai ser dia 12. Quinta da semana que vem. Isso significa que na semana que vem, se tudo der certo, eu já me mudo, porque eu não tou interessada em gastar 300 contos de passagem só pra ir pra entrevista, pra ter que gastar tudo de novo na semana seguinte. Já viram que uma coisa na minha vida não mudou: eu continuo correndo feito uma doida. Vai ver é por isso que eu me sinto "no mundo" em São Paulo (apesar de eu estar indo morar num bairro muito silencioso). E também porque num dia só a gente vai em 5 feiras sem fazer muito esforço. E porque a gente come bem demais, mesmo quando o prato do dia é yakissoba de pé no meio da rua. E tem um sebo em cada esquina, com livros ótimos. E tem feijoada da boa, e uma rua só de instrumentos musicais que a gente vai descendo e ouvindo gente tocando bateria atééé lá embaixo - coisas que trazem lembranças de um tempo bem bom que não vai voltar. E tem muito homem bonito na rua pra gente superar a saudade daquele tempo bem bom que não vai voltar. Infelizmente, vários dos gatos são gays, a depender de onde se transite, mas olhar faz bem pra alma, não paga imposto nem requer muitas masculinidades de parte do admirado. Só a constatação de que eu sinto vontade de cutucar alguém e dizer "bah, que gato", ou de que eu me engasgo vendo um cara bonito passar (e pago o maior mico na frente dele, e destruo toda e qualquer chance de ele se sentir atraído por mim, mas assovia agora e esquece essa parte), já são bom sinal. Sinal de cura. Como dizem por aí, tarda mas não falha.

Mas o que a cabeça sabe que não volta o coração ainda não fez o favor de aprender. E ontem, voando em cima de uma certa cidade, e parando num certo aeroporto, o coração apertou que só ele. Mesmo com todo o cansaço, correu uma lagriminha no canto do olho. Lagriminha que fazia tempo que não pintava, lagriminha que ninguém viu, mas que doeu aqui dentro. Saudade que me tomou hoje o dia todo, lagriminha virou choro frouxo ouvindo música que dá saudade.
Saudade que me deu no dia do meu aniversário ouvindo a voz que eu sabia que ia estar do outro lado do telefone, que eu sabia que seria a primeira voz de parabéns do ano. Saudade pegou fundo pensando daqui a dois meses como vai ser olhar no olho de novo na frente de todo o mundo, sem poder expressar sentimento, e que sentimento vai ser? Queria olhar no olho de novo, mas já desisti de falar, insistir e ser chata. A cabeça desistiu; o coração ainda não, ainda sonha.

Saudade que vai me dar cada vez que eu passar na Paulista, que eu entrar na Fnac. Acho que foi bom não morar perto da Teodoro, nem na Vila Mariana, no fim das contas. Tem coisa que ainda dói, mesmo eu não querendo. Mas um dia vai parar de doer, e acho que não vai demorar. Eu sinto que não. E São Paulo, que era nossa, agora vai passar a ser só minha. E eu vou ser feliz.

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