quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Meio cheio, meio vazio

Eu tava com uma sensação de que essa semana seria decisiva. Desde segunda, tava incomodada, achando que mais e mais coisas aconteceriam. Houve um episódio no DL, o Eric, uma troca de e-mails... Mas eu tava esperando mais uma coisinha. Pra ontem.

Literalmente pra ontem. Mas ontem não aconteceu nada e eu desencanei. Resolvi dar o ameaçado tratamento-padrão. E hoje pela primeira vez em muito tempo eu não fiquei olhando pela janela num determinado trecho do trajeto casa-USP. Saí de casa pensando: "se não foi ontem, hoje é que não vai ser".

Cheguei atrasada pra aula. Sem músicas nos ouvidos, porque o iPod tava descarregado e as pilhas recarregáveis do mp3 vermelho tavam descarregadas e não tinha músicas no meu celular. Uma horrível coincidência pra quem enfrenta horas de trânsito tedioso diariamente.

Sem músicas nos ouvidos, chegando com pressa, e de repente lá está. A primeira idéia foi virar as costas. A segunda, entrar e não olhar. As outras são sangrentas demais pra contar aqui. Prevaleceu a segunda. Tava quase conseguindo, mas aí ouvi um "Psiu!" e não consegui ignorar. Fiquei fria. Parei, virei, fria. Cumprimentei, fria. Beijinho, mas sem sorriso, sem nem olhar direito. Fria. Ia te ligar hoje, Ah tá, Pois é, Tô atrasada pra aula, Eu também, Ah então vou indo nessa, Te ligo hoje, Tá.

Entrei no banheiro. Quente. Muito quente, fervendo, o peito em ebulição. Tremi. Uma lágrima se amontoou no canto do olho, sequei. Quente. Fervendo. Raiva, tristeza, quente, muito quente, um calor insuportável por dentro. Atrasada, corri pra sala, tremendo ainda. "Leonor, o que você achou do texto?", eu nem tinha sentado ainda. "Hã?" "O texto, o que você achou?"

Resposta real: "Achei mais simples que o outro, mais palatável, mas acho que preciso ler mais uma vez".

Resposta que eu queria ter dado: "Não achei nada, porque não pude ler, porque os últimos dois dias foram tristes e difíceis e cansativos e ainda hoje me acontece isso, não tá dando pra ver pela minha cara que eu não tô legal?"

Não me concentrei na aula. Olhava pro teto, pra parede, pra janela, pra porta, pro chão. Quente e frio se alternando. Meia hora depois eu ainda tremia. Alguém que provavelmente sabe da história provavelmente notou. Perguntou se tava bem. Tem sempre alguma coisa a mais. Tem mesmo.

Na aula, alguém comenta a história do copo meio cheio ou meio vazio. Que me traz lembranças de uma conversa tida há muito tempo atrás, com outra pessoa, numa história parecida. Bullshit, hoje meu copo tá completamente vazio, aliás, a minha sensação é que roubaram o meu copo e eu nunca mais vou ter nada pra encher, vou viver de academia pra sempre e pronto. Logo eu, que trocaria tudo... Mas a academia tem sido meu único motivo de satisfação, e ultimamente nem pra ela eu tenho me dedicado como deveria. Tenho perdido muito tempo pensando em quem foi o filhadaputa que roubou meu copo, isso sim. Não consigo fazer diferente.

Chego em casa e o telefone não tá funcionando. Nem a internet. Só porque eu queria escrever aqui e ia receber um telefonema. Felizmente tudo foi consertado, mas não posso falar sobre o telefonema porque sinceramente foi extremamente brochante. Maldito aquele que roubou meu copo, whoever he is. Mas se eu tivesse um copo, não saberia dizer se hoje ele estaria meio cheio ou meio vazio.

Só o que eu posso dizer é que hoje eu sei que eu tinha alguma razão em procurar camisetas amarelas na multidão...

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