domingo, 28 de setembro de 2008

Falastério

Sinto que eu poderia escrever toneladas. Um post que durasse um dia inteiro. É tanta coisa passando pela minha cabeça, cenas de passados distantes e recentes, coisas que eu ouvi e que não tinham significado algum (hoje eu sei), histórias que os amigos me contam, uma conversa longa com o Tigrão hoje que eu queria colar inteira aqui mas acabei apagando sem querer, projeções de um futuro próximo que talvez aconteça, meus sonhos que não me deixam em paz, uma inércia de algumas coisas, inércia incômoda que eu quero mandar embora e não consigo, apesar de tudo. Poemas do Drummond que eu reli e lembrei como falam tão bem do que eu sinto, um poema do Bandeira que retrata bem o meu atual estado frente às coisas do mundo. Não preciso de tempo pra processar, já tá tudo muito bem processado. O problema todo é entender. Entender eu não consigo, entender dói. Entender é a tarefa mais difícil de todas. E eu não consigo sossegar enquanto não entendo. Por mais que eu pense e escreva e converse e argumente sozinha no escuro e saiba que tudo que eu tenho projetado tem grandes chances de acontecer, e daí? Não adianta nada. Não alivia a angústia. Me exaure essa dinâmica minha com o mundo. Mas não consigo mudar, não sei não ser inquieta.

Tou meio por aqui com tudo. Cansa. A minha autoconsciência se choca com a falta de autoconsciência da maioria dos seres que ambulam por esse mundão de deus. Como as pessoas podem não perceber o alcance das suas atitudes e palavras? Como podem ser tão mentirosas, ou se não são mentirosas, covardes? Pra quê? Por quê? O que aconteceu com a sinceridade?

Na falta de respostas às minhas eternas indagações, deixo aqui um poema do Drummond que não responde nada, mas que também fala da vida. E claro que o jeito dele de falar é muito melhor do que o meu...

Parolagem da Vida

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.

Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.

Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!

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