Tou meio por aqui com tudo. Cansa. A minha autoconsciência se choca com a falta de autoconsciência da maioria dos seres que ambulam por esse mundão de deus. Como as pessoas podem não perceber o alcance das suas atitudes e palavras? Como podem ser tão mentirosas, ou se não são mentirosas, covardes? Pra quê? Por quê? O que aconteceu com a sinceridade?
Na falta de respostas às minhas eternas indagações, deixo aqui um poema do Drummond que não responde nada, mas que também fala da vida. E claro que o jeito dele de falar é muito melhor do que o meu...
Parolagem da VidaComo a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
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