domingo, 14 de dezembro de 2008

Contos de fada

No filme de Sex and the City tem uma cena que a Carrie tá lendo um conto de fadas pra Lily, filha da Charlotte. Quando chega no final da história e ela diz "and they lived happily ever after", a Carrie vira pra guria e fala que aquilo é tudo mentira, que ela tem que saber desde cedo que as coisas não são assim na vida real, que ela não deve se iludir desde o berço com a existência de um príncipe encantado que fica com a gente pra todo sempre. Aí a Lily só olha pra ela e diz "again", e a Carrie constata que a guria, com três anos de idade, já é um caso perdido.

Época de férias, sábado à tarde sem chuva, a criançada do prédio ao lado desceu em peso pra brincar. Tava eu lavando a louça do almoço e ouvi eles brincando de príncipe e princesa, um guri falando pra uma guria que ela era uma princesa linda, a mais bela princesa que ele já viu, case comigo, seremos felizes para sempre agora que o mal já passou, e ticétera*. Fiquei rindo sozinha, lembrando de quando eu era criança e brincava de Branca de Neve com o pessoal do prédio, sempre os mesmos diálogos e seqüências narrativas, só mudava quem fazia o que.

Um tempo depois, mais pro meio da tarde, a brincadeira tinha mudado. E lá estava a mesma guria, que antes era a princesa, gritando eu te amo, eu sempre te amei, você não pode fazer isso comigo, seu cafajeste, covarde, como você teve coragem de me trair com essa vagabunda, seu sem-vergonha, suma da minha frente.

Acho que eles estavam brincando de novela. Mas bem podia ser o caso que estivessem brincando de vida real. Acho que só em Sex and the City, mesmo, as menininhas ainda se iludem com príncipes e happily ever afters. Na vida real, parece que a mulherada já nasce sabendo como é que vai ser...

* Forma modernizada do latim et cetera, utilizada por alunos de ensino médio e graduação.

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