quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A saga bancária

Permitam-me narrar uma história longa. Porque, vocês sabem, a pessoa tem que entregar a versão finalíssima da sua qualificação na segunda e procrastinar é preciso. Mas leiam até o final, se tiverem saco pra isso, e depois me digam se eu não devia era ir pra imprensa.

Desde as priscas eras eu era correntista do Banco do Brasil. Foram três anos de iniciação científica, dois de mestrado e quase um de doutorado recebendo meus dividendos neste dito banco. Mas aí veio a FAPESP e eu precisei virar correntista da Nossa Caixa. Tudo bem, munida de todos os três mil documentos necessários, lá fui eu. Após uma nada auspiciosa espera de três horas e meia, virei correntista da Nossa Caixa. E aí surgiu a dúvida: manter ou não manter a conta no BB?

Resposta: manter, é claro. Afinal, terminal de atendimento da Nossa Caixa fora do estado de São Paulo é mais raro do que qualquer coisa muito rara que eu agora não consigo lembrar de nenhum exemplo. Perdoem-me, sou doutoranda em fase de qualificação, meu cérebro não anda dos melhores. Fecha parênteses. Como doutoranda que vive viajando pra congressos pra cá e pra lá, muitas vezes para locais inóspitos e remotos (não, nem só de João Pessoa vive o doutorando em lingüística) em que, se tiver uma agência bancária, vai ser do BB, é no mínimo inteligente manter a tal conta. E, como filha de bancário de banco top referência mundial na área, pedi pra converter a minha conta corrente numa conta poupança, que não tem grandes taxas de manutenção e ainda rende uns troquinhos, ainda que mirrados.

Pois bem. Em novembro do ano passado, no dia em que caiu meu último débito em conta do mês, fui lá fazer o cambalacho. Tudo ótimo, o débito já foi debitado, seu saldo é de tantos reais, a senhora pode usar o mesmo cartão de agora, a conta poupança será ativada dentro de dois dias úteis, tudo lindo e perfumado. Até que, uns quinze dias depois, chega na minha casa um aviso de que eu não paguei as contas cujos débitos o funcionário me disse que tinham sido efetuados no dia em que eu fui abrir a poupança. Ok, pequeno percalço do sistema, paga os jurinhos e tudo certo. Certo?

Errado! Porque uns dez dias depois disso a coió aqui resolve sacar a grana que sobrou do salário do mês na Nossa Caixa e enfeitar sua reluzente poupancinha. Pergunta: conseguiu? Nãããão! As máquinas da sala de auto-atendimento se negaram a engolir o envelopinho com o dinheirinho suado desta que vos fala.

No dia seguinte, lá fui eu de novo pro atendimento do BB. Veja bem, senhora, às vezes o cartão atual não funciona, isso é normal (meu pensamento: ah é? então por que tu não me disse isso quando eu vim aqui da outra vez?), vou solicitar outro cartão pra senhora, dentro de dez dias deve estar disponível. Vai ser enviado pra minha casa? Sim senhora, será enviado diretamente para a sua residência. Ok, obrigada, tchau.

Passaram-se dez, quinze, vinte dias e cadê que o cartão chegou? Nisso já era quase Natal e lá fui eu de novo pro banco saber que diabos tava acontecendo. Ah, senhora, veja bem, o cartão de poupança não é enviado para a casa do correntista, ele vem diretamente para a agência. E o meu cartão está na agência? Só um momento que eu vou consultar. Quinze minutos depois, nada de cartão na agência. O problema, senhora, é que o seu cartão antigo ainda está ativado no sistema, então o sistema identifica que a senhora ainda tem um cartão (que o próprio sistema-pedro-bó não me deixa usar, percebam) e não é gerado um novo cartão. Eu vou cancelar o cartão atual da senhora (ah, o cartão expletivo?) e dentro de dez dias o novo cartão deve chegar pra senhora, eu mesmo vou telefonar pra senhora quando chegar. Estarei em férias, longe de São Paulo. Sem problemas, eu ligo mesmo assim e a senhora retira o cartão quando voltar.

Na terça-feira gorda eu voltei pra São Paulo sem ter recebido ligação nenhuma e com viagem marcada pra João Pessoa dali a sete dias. Comecei meu ano adivinhem onde? No atendimento do BB. Oi, eu queria saber se o meu cartão chegou. Identidade, por favor? Sim, pois não. Um momento. Dez minutos depois, volta a moça sem cartão nenhum na mão. Mas como assim? Veja bem, senhora, não sabemos o que aconteceu, provavelmente houve um erro no sistema, sugerimos que a senhora ligue para o atendimento BB para saber o que houve. Pois não, e o meu dinheiro enquanto isso fica refém de vocês? Não senhora, a senhora pode sacar a quantia que desejar diretamente no caixa (ah, na fila quilométrica?) mediante apresentação do documento de identidade. Fui lá, saquei o que eu julgava suficiente pra sobreviver por quinze dias no paradisíaco litoral nordestino e depositei na conta de uma colega. Liguei pro atendimento BB. Não consta nenhum problema no sistema, senhora. E então o que eu faço? Vamos solicitar novamente um cartão, a senhora pode estar retirando ele dentro de dez dias na sua agência. Ah, posso? Ah, tá.

Viajei, voltei, fui na agência, adivinhem? Nenhum cartão pra mim! Confesso que fiquei com muita vontade de quebrar a agência inteira em mil pedacinhos. Mas me contive, porque eu sou uma lady, saquei todo o meu dinheiro e mandei encerrar a porcaria da poupança. Afinal agora o BB tinha comprado a Nossa Caixa e já dava pra sacar nos terminais do BB. Problema resolvido.

Mas esperem! Eis que hoje eu fui bem faceira sacar o meu rico e suado dinheirinho pra depositar meu aluguel e o que acontece? O terminal me diz que vai gerar uma senha de sílabas como a do BB, como parte da migração de sistemas. Ok, até aí normal, apesar de que, como diz meu pai, ter cartão com chip e a senha aumentar de letras pra sílabas é algo muito, hã, lusitano. Mas tá, vamos lá gerar a senha de sílabas. Para isso, digite o código de segurança do seu cartão. Ah, tá, deixa eu ve... peraí, meu cartão não tem código de segurança! Pego um funcionário e pergunto o que eu devo fazer. É, aqui a senhora não tem como fazer nada. Como assim? É, o seu cartão não tem como gerar a senha. Ah, quer dizer então que eu nunca mais vou poder sacar dinheiro? Um momento que eu vou verificar se já chegou um cartão novo pra senhora.

(Parênteses: notaram alguma semelhança?)

Dou um prêmio pra quem adivinhar se o meu Ourocard Nossa Caixa já estava na agência. Solução: cancelar o meu cartão atual, me deixando dez dias sem débito (!!!) e tendo que sacar na boca do caixa enfrentando filas homéricas, e solicitar um novo, pra eu poder ter a maldita senha de sílabas que é desnecessária num cartão com chip quando o sistema é bem montado. Enfim. Posso jogar uma bomba nos bancos agora?

Ah, detalhe: depois desse forrobodó todo, eu fui no BB ver se conseguia sacar com o cartão da Nossa Caixa. Tentem adivinhar o que aconteceu!

8 comentários:

Tigre disse...

Murphy & Kafka. Combinação explosiva. Sim, vai pra imprensa. Agora, não sei se é um caso de CQC ou Oprah.

Clark disse...

Nem parece banco...

Leo disse...

sim, Kafka total! nem tinha me dado conta disso!!!

Ana disse...

Se eu te falar que depois de ir 3 vezes na agência fechar a minha conta, pagar tudo o que devia, o BB ainda teve a cara de pau de me ligar para cobrar a quantia de:

R$ 0,04

Isso mesmo, quatro centavos! A ligação ficou mais cara que a dívida...

Leo disse...

Ana, teu apelido a partir de agora vai ser Ana-quatro-centavos! hahahaha só rindo mesmo!!

Ana disse...

Eu podia valer um pouco mais, hahahaha!!!

Vida disse...

ESta semana Cacau precisou abrir uma conta para receber salário bo BB. Ao chegar lá, depois deuma espera loooooga, o gerente disse q teria que agenadr a abertura para dali a vinte dias... Ele disistiu e conseguiu receber pelo banco em que ele já era correntista.

Clark disse...

Banco do Brasil, o maior banco do Brasil...