Fui pra Brasília prum congresso de lingüística, mas acabei me encantando mesmo foi com a vida política, personificada pelo Congresso Nacional. Fui lá todos os dias de segunda a quinta e só saí na quinta porque já tava de noite. Juro. Quase me deu vontade de chorar hoje quando eu passei por lá pela última vez, de longe, a caminho do aeroporto, e pensei que vai demorar muito pra eu conseguir voltar.
Provavelmente ninguém, ou quase ninguém, vai entender o que pode haver de tão fascinante no Congresso, ou mesmo numa cidade árida como Brasília. Acreditem em mim, há muito. JK foi um visionário. Lembro de ter aprendido no colégio que ele construiu Brasília, faliu o país e morreu, mas não sabia nem de quê. Ir pra Brasília me fez admirar muito as idéias e a figura do JK, e acho que se ele tivesse tido um segundo mandato o Brasil seria muito diferente do que é hoje. O Brasil teve foi azar.
Brasília é uma cidade linda. O plano piloto é uma obra do Niemeyer a céu aberto, e eu, vocês sabem, pago pau pro Niemeyer: Ibirapuera, Memorial da América Latina, Museu do Olho em Curitiba (onde eu pude ver uma exposição sobre o Niemeyer e me apaixonei mais ainda pelo estilo dele) e por aí afora. O cara é fera. Todos os prédios públicos que eu visitei me deixaram boquiaberta, especialmente o Itamaraty. Podia escrever um post inteiro sobre o Itamaraty, sua escada sem corrimão, seu Salão Nobre, as obras de arte, o paisagismo do Burle Marx, a sobriedade não-ostentativa e mesmo assim incrivelmente imponente. Lindo. Simplesmente lindo.
Mas o Congresso me cativou. Todo brasileiro devia ir lá e ver como a coisa funciona, ver todos os bastidores que a TV Câmara e a TV Senado não mostram. Impressiona o fácil acesso que a gente tem a tudo: Câmara, Senado, gabinetes de senadores, Comissões, dá pra ir onde quiser. A gente conseguiu falar com o Senador Cristovam Buarque, que confirmou, naqueles poucos minutos, a impressão que eu sempre tive dele: que pessoa fantástica! Falamos sobre as universidades, sobre educação, sobre literatura. Fiquei tão emocionada que esqueci de falar que eu votei nele! Minha admiração por ele só fez aumentar, ali de pé no corredor do Túnel do Tempo. Falamos também com o Suplicy, que eu, apesar de não-petista assumidérrima, admiro pela coerência. Fomos recebidos no gabinete dele, o cara tirou meia hora da agenda pra receber um bando de alunos da USP que não tinham nem marcado hora. Caralho, me senti importante! Sem contar que a gente assistiu a reunião da CCJ e vimos pelos corredores o Marco Maciel e o Pedro Simon, meu ídolo político no RS, entre muitos outros.
Falando em Simon, no dia seguinte passamos a tarde e parte da noite na platéia do Senado. Vimos a Katia Abreu chorar defendendo os agricultores, vimos o Cristovam fazer um belíssimo aparte falando sobre a subversão do Bolsa Família, vimos o Simon dar um discurso de tirar o chapéu sobre as denúncias ao Michel Temer e a inoperância da Casa, vimos muitas outras falas pertinentes, até do Mão Santa! Vi também, uns dias antes, o Paulo Paim falar sobre as chuvas constantes que vêm castigando o Rio Grande do Sul, e gostei do que ele falou, apesar das nossas muitas discordâncias políticas. Assistir as sessões do Senado fez eu me sentir cidadã, fez eu querer escrever pro Simon e responder à conclamação inflamada que ele fez "estamos aqui!".
Também fizemos amizade com os porteiros, o pessoal da recepção, a moça do guarda-volumes e a galera da cantina, nos envolvemos numa causa política contra a aprovação de uma PEC, e conversamos longamente com o senhor que vende livros na livraria do Senado. Aliás, povo da literatura, pasme: a Editora do Senado reeditou os há muito esgotados volumes da História da Literatura Ocidental, do Otto Maria Carpeaux. Tudo por 200 reais, é só pedir pela internet, e eles mandam entregar na tua casa, seja onde for, sem custo adicional. Os meus chegam terça-feira! Gente, passei a minha vida acadêmica todinha querendo loucamente comprar esses bichos, e olha só onde eu fui achar. A Editora do Senado tem um catálogo muito interessante, dá vontade de comprar quase tudo, especialmente porque os preços são muito acessíveis. Eles tão fazendo um resgate da cultura nacional e pouquíssima gente sabe.
O bottom line é esse: todo mundo olha de longe o que acontece no Congresso, e no máximo faz piada. Ninguém vai lá ver como é, poucos se dispõem a meter a mão na massa. O Simon tá coberto de razão. Pois eu acho que todo mundo devia ir lá ver como é, todo mundo devia prestar atenção no que os parlamentares falam nas tribunas e nas comissões, todo mundo devia mandar e-mails, tuitar, mandar cartas, telefonar, enfim, fiscalizar de perto o trabalho das pessoas que elegeu. Como bem disse o senador Mozarildo Cavalcanti, de Roraima, ninguém tá lá dentro por decreto, todo mundo foi eleito. E se a gente não quer mais Arrudas no mundo, é a gente que tem que se mexer pra isso. Afinal nenhum Sarney se elege sozinho.
Provavelmente ninguém, ou quase ninguém, vai entender o que pode haver de tão fascinante no Congresso, ou mesmo numa cidade árida como Brasília. Acreditem em mim, há muito. JK foi um visionário. Lembro de ter aprendido no colégio que ele construiu Brasília, faliu o país e morreu, mas não sabia nem de quê. Ir pra Brasília me fez admirar muito as idéias e a figura do JK, e acho que se ele tivesse tido um segundo mandato o Brasil seria muito diferente do que é hoje. O Brasil teve foi azar.
Brasília é uma cidade linda. O plano piloto é uma obra do Niemeyer a céu aberto, e eu, vocês sabem, pago pau pro Niemeyer: Ibirapuera, Memorial da América Latina, Museu do Olho em Curitiba (onde eu pude ver uma exposição sobre o Niemeyer e me apaixonei mais ainda pelo estilo dele) e por aí afora. O cara é fera. Todos os prédios públicos que eu visitei me deixaram boquiaberta, especialmente o Itamaraty. Podia escrever um post inteiro sobre o Itamaraty, sua escada sem corrimão, seu Salão Nobre, as obras de arte, o paisagismo do Burle Marx, a sobriedade não-ostentativa e mesmo assim incrivelmente imponente. Lindo. Simplesmente lindo.
Mas o Congresso me cativou. Todo brasileiro devia ir lá e ver como a coisa funciona, ver todos os bastidores que a TV Câmara e a TV Senado não mostram. Impressiona o fácil acesso que a gente tem a tudo: Câmara, Senado, gabinetes de senadores, Comissões, dá pra ir onde quiser. A gente conseguiu falar com o Senador Cristovam Buarque, que confirmou, naqueles poucos minutos, a impressão que eu sempre tive dele: que pessoa fantástica! Falamos sobre as universidades, sobre educação, sobre literatura. Fiquei tão emocionada que esqueci de falar que eu votei nele! Minha admiração por ele só fez aumentar, ali de pé no corredor do Túnel do Tempo. Falamos também com o Suplicy, que eu, apesar de não-petista assumidérrima, admiro pela coerência. Fomos recebidos no gabinete dele, o cara tirou meia hora da agenda pra receber um bando de alunos da USP que não tinham nem marcado hora. Caralho, me senti importante! Sem contar que a gente assistiu a reunião da CCJ e vimos pelos corredores o Marco Maciel e o Pedro Simon, meu ídolo político no RS, entre muitos outros.
Falando em Simon, no dia seguinte passamos a tarde e parte da noite na platéia do Senado. Vimos a Katia Abreu chorar defendendo os agricultores, vimos o Cristovam fazer um belíssimo aparte falando sobre a subversão do Bolsa Família, vimos o Simon dar um discurso de tirar o chapéu sobre as denúncias ao Michel Temer e a inoperância da Casa, vimos muitas outras falas pertinentes, até do Mão Santa! Vi também, uns dias antes, o Paulo Paim falar sobre as chuvas constantes que vêm castigando o Rio Grande do Sul, e gostei do que ele falou, apesar das nossas muitas discordâncias políticas. Assistir as sessões do Senado fez eu me sentir cidadã, fez eu querer escrever pro Simon e responder à conclamação inflamada que ele fez "estamos aqui!".
Também fizemos amizade com os porteiros, o pessoal da recepção, a moça do guarda-volumes e a galera da cantina, nos envolvemos numa causa política contra a aprovação de uma PEC, e conversamos longamente com o senhor que vende livros na livraria do Senado. Aliás, povo da literatura, pasme: a Editora do Senado reeditou os há muito esgotados volumes da História da Literatura Ocidental, do Otto Maria Carpeaux. Tudo por 200 reais, é só pedir pela internet, e eles mandam entregar na tua casa, seja onde for, sem custo adicional. Os meus chegam terça-feira! Gente, passei a minha vida acadêmica todinha querendo loucamente comprar esses bichos, e olha só onde eu fui achar. A Editora do Senado tem um catálogo muito interessante, dá vontade de comprar quase tudo, especialmente porque os preços são muito acessíveis. Eles tão fazendo um resgate da cultura nacional e pouquíssima gente sabe.
O bottom line é esse: todo mundo olha de longe o que acontece no Congresso, e no máximo faz piada. Ninguém vai lá ver como é, poucos se dispõem a meter a mão na massa. O Simon tá coberto de razão. Pois eu acho que todo mundo devia ir lá ver como é, todo mundo devia prestar atenção no que os parlamentares falam nas tribunas e nas comissões, todo mundo devia mandar e-mails, tuitar, mandar cartas, telefonar, enfim, fiscalizar de perto o trabalho das pessoas que elegeu. Como bem disse o senador Mozarildo Cavalcanti, de Roraima, ninguém tá lá dentro por decreto, todo mundo foi eleito. E se a gente não quer mais Arrudas no mundo, é a gente que tem que se mexer pra isso. Afinal nenhum Sarney se elege sozinho.
16 comentários:
Sinto muito, mas não dá pra confiar e nem acreditar em quem legisla o próprio aumento de salário... Mas concordo JK foi um visionário ele não só faliu o Brasil como garantiu que a corrupção e a politicagem continuassem já que nenhuma manifestação epressão popular chegam a se formar em frente ao governo desde que se fez Brasilia... Mas é lindo! E o poder oratório advindo desse "Olimpo" em que esses "Deuses Intocáveis" pela Imunidade Parlamentar moram subjulgam o povo que põe a "mão na massa" todo santo dia pra construir esse país. Te amo, minha galega.
o que tu sugere então? a anarquia?
Eu não sugiro nada... e nem quero brigar por isso...
não tou brigando, tou te perguntando. todo sistema de governo tem suas desvantagens, mas eu ainda prefiro a democracia. desde que os cidadãos exerçam seus direitos e deveres em vez de cruzar os braços e eleger a corruptália toda de novo no ano que vem.
e construir o país também é ficar em cima de quem a gente elegeu. e pra isso não precisa ir bater panela na frente do congresso, tem jeitos igualmente eficazes, especialmente hoje em dia, na era da comunicação. se omitir e esperar que deus resolva é que não resolve o problema de ninguém.
Concordo contigo, não discordo em quase nada, exceto na parte de colocar a mão na massa e do modo como tu apresenta tudo parece muito uma criança chegando na "Disneyland" ou vendo um show de ilusionismo. Sei que tu não tem essa inocência e assim como você admiro tanto o JK quanto o Niemeyer. Acredito, tanto quanto você que temos "bons políticos", o Buarque, por exemplo, mas também vejo que brasilia não foi só um ponto estratégico militarmente falando, e sim de manobra principalmente para evitar pressão popular... E acho que isso devia ser ressaltado. Qualquer maquete é linda e quando bem executada é melhor ainda mas a podridão que está por trás disso tudo, e veja bem o que sai nos jornais não é nem um terço do bolo todo, que fica difícil... Tenho políticos na familia e sei que por mais integro e correto que você seja, será forçado a dançar conforme a música deles... Não importa se é PT, PSD, PSOL, PV ou PQP pq ou dança a musica dos caras ou eles te derrubam.
bom... mudar a capital pra lá tava na Constituição desde mil oitocentos e pá; o que o JK fez foi respeitar a Constituição. também não acho, sinceramente, vendo a índole das pessoas com as quais eu tenho oportunidade de discutir política, que se a capital continuasse no Rio haveria menos corrupção ou mais manifestação popular. e acho que esse papo de "Brasília é longe" uma desculpinha esfarrapada. na época da Constituinte de 88, e na época do Collor, tava cheio de gente lá. pra posse do Lula nem se fala, foi público recorde. o que, na minha modesta opinião, diz bastante sobre o povo brasileiro.
quanto a dançar conforme a música, daqui a uns dias deve sair no site do senado a íntegra do pronunciamento do Simon dia 03/12. sugiro que tu leia, porque ele falou sobre isso com muita propriedade, e sobre várias outras coisas que me moveram a mandar um e-mail pra ele hoje mais cedo. não pra concordar com tudo, mas pra me posicionar frente ao que ele disse.
não entrei no Congresso como quem entra na Disney; mas te garanto que saí de lá uma cidadã muito mais consciente dos seus direitos e deveres. e pronta pra colocar a mão na massa e fazer a minha parte por esse país. e não precisa estar num cargo público, nem em Brasília, pra fazer isso.
p.s.: este blog tá virando sucursal do "Em Metrópolis"... hahahaha!
Dando umas palavras aqui na Sucursal:
1) Nas palavras de Churchill, “a democracia é o pior sistema de governo que existe... se você desconsiderar todos os outros que já são tentados de tempos em tempos”.
2) Comoo o sen. Simon mesmo disse, trocar a democracia por outra coisa em nome da “eficiência” é só trocar a incompetência que é visível (para ser investigada, combatida, etc) pela incompetência secreta.
3) A necessidade de construir Brasília pode ser muito questionada. Mas é um fato de que a maioria do país realmente ACHAVA que era necessária. E JK foi cobrado a construí-la. E teve a consciência de saber que, se não a fizesse em um único mandato, ela nunca teria sido terminada... e isso sim seria um rombo público (e oportunidade de desvio de verbas) infinitamente maior.
4) Brasília é tão longe quanto qualquer cidade brasileira. É só ter com que comparar. Eu votaria pela capital ser SP, mas SP é mais longe de Salvador (e do Norte/Nordeste) do que Brasília... Ou não é?
Não posso deixar de comentar esse post.
Tenho uma pergunta importante a fazer que ninguém mencionou até agora!
Alguém viu a cueca do Suplicy? Era vermelha?
(Eu queria ter ido pra Brasília...)
Ah, tou precisando dar uma bisbilhotada nos títulos da editora do senado... valeu pela dica!
Bem, ninguém viu a cueca de Suplicy... mas tinha um colega nosso que disse que estava de cueca vermelha... e que ia pedir para Suplicy autografar. Não sei se ele pediu...
o voto não foi feito pra gente ser representado por alguém?? ou além de votar (confiar, delegar poderes) ainda vou ter que ir lá, assistir as sessões do senado e dizer pros caras o que eles têm que fazer e como fazer?? concordo que a sociedade tem que ficar atenta, como diz o ditado, é o olho do dono que engorda o boi, mas daí a tratar os caras como bebês, ficar sempre em cima, sem poder soltar a mão que já saem fazendo traquinagens, é demais. estamos caminhando pra uma limpeza étnica, a passos lentíssimos, eu sei, mas estamos.
quanto a bsb, não há dúvidas que jk usou niemeyer. e niemeyer adorou dar vazão pro ego dele. imagina, projetar a capital de um país!! com isso não tiro o mérito do artista que ele é, mas talvez um pouco de diversidade, que é o retrato do brasil, uma diversidade gigante, seria melhor.
se tu tiver o link do simon, me manda, quero ver o que o caudilho dos pampas falou.
ninguém falou em tratar ninguém como bebê, mas se só votar e confiar fosse suficiente não tinha tanta roubalheira por aí. ou ninguém elegeu os caras que roubam? é a mesma filosofia das pessoas que contratam uma empregada doméstica e depois reclamam que o serviço tá mal-feito, sem se dar ao trabalho de ensinar como deve ser feito ou de conferir o andamento das coisas. tu deve saber melhor que eu que não adianta botar uma empregada dentro de casa e esperar que as coisas fiquem milagrosamente limpas e arrumadas, né? essa mentalidade do "eu pago o teu salário, então te vira aí com o resto" gera boa parte dos problemas desse país.
quanto ao termo limpeza étnica, não vejo como possa se aplicar ao congresso... tão matando os congressistas negros? os brancos? os mestiços?
quanto ao Niemeyer e à diversidade, o que tu esperava? um prédio em estilo alemão, outro em estilo italiano, talvez a casa do presidente pudesse ser uma grande oca? não vejo por que uma capital deva representar a diversidade do país, acho que o país inteiro, no seu modus operandi e na cara de cada cidadão, já faz isso muito bem. Brasília é uma cidade, não uma alegoria.
por fim, todos os pronunciamentos de todos os senadores estão disponíveis no site do senado. demora alguns dias pra ser publicado, mas deve aparecer por lá em breve. é só procurar.
boa parte dos problemas é gerado pelos sem vergonhas que querem grana fácil, e isso se aplica aos senadores, deputados, empregadas domésticas, diagramadores, mecânicos - ou tu acha que quando alguém paga pra arrumar o carro, fica lá dizendo faz assim, faz assado? acho que não...
eu usei o termo étnico alegoricamente, acreditando na força dele - mais forte do que uma limpeza étnica, creio que não há, e creio que é o que o congresso precisa, o país precisa, uma limpeza forte, tirar a corja que tá lá e colocar cabeças boas, dispostas a realmente "representar" o povo...enfim...
como se diz por aí, gosto não se discute, eu acho que ficaria mais bonita com diversidade - mas só acho, porque não fui ainda, e vai demorar pra ir, no que depender de mim, tem muito lugar mais bonito nesse brasil pra conhecer antes de bsb.
vou procurar.
Postar um comentário