terça-feira, 12 de outubro de 2010

Minha despretensiosa análise sobre o debate

Pois então, ontem tivemos o primeiro debate do segundo turno. Antes do debate, durante a tarde, a Dona Dilma alardeou aos quatro ventos que esperava um debate limpo, de alto nível. Todos os prognósticos davam conta de que seria um debate tranqüilo, baseado no "paz e amor" de ambos os lados.

Evidentemente, não foi o que se viu. A Dona Dilma, logo na primeira pergunta do primeiro bloco, saiu reclamando, aos brados, que está sendo vítima de calúnias e difamações por parte da campanha do Serra e seus aliados.

Pois bem, vamos por partes. Partamos da premissa de que calúnias e difamações pressupõem inverdades. Mentiras mesmo. Estabelecida a premissa, vejamos: Dilma acusa Serra de difamá-la espalhando boatos de que ela é atéia e favorável ao aborto.

Em primeiro lugar - já cansei de repetir em outros lugares, mas vamos de novo - quem começou a falar de aborto não foi o Serra, nem a mulher do Serra, nem a campanha do Serra. Quem trouxe o assunto à tona foi a Marina, ao defender um plebiscito sobre o assunto (Marina e seus plebiscitos hehehe). Alguns líderes religiosos, especialmente os líderes evangélicos, não ficaram muito felizes com essa idéia, muito menos vinda de uma irmã de fé. E enganam-se os que acham que pessoas ligadas a comunidades religiosas são desinformadas! Não demorou muito pra essas mesmas lideranças começarem a criticar o PNDH3, que fala abertamente sobre a legalização do aborto irrestrito. E daí pra começarem a apoiar o único candidato que não deu mostras de querer legalizar o aborto (portanto, o candidato mais afinado com as crenças dessa fatia da população) foi um pulinho, e bem previsível.

Então sim, uma parte da sociedade não é favorável à legalização do aborto. Aliás, pesquisas recentes do Datafolha mostram que mais ou menos 70% da população é contra, independente da fé que professam ou deixam de professar. E ao contrário do que dizem alguns supostos democratas que vêm pregando que se calem as vozes dos religiosos, essas pessoas têm, sim, todo o direito de não votar num candidato que vá contra suas crenças e de fazer campanha contra esse candidato. Da mesma forma como um eleitor que é contra privatizações tem o direito de não votar num candidato que é favorável a privatizações e de fazer campanha contra. Mesmo que existam muitos argumentos em favor da liberação do aborto, vivemos numa democracia e todos têm o direito de expressar suas opiniões, sejam elas maioria ou minoria, religiosas ou seculares, "certas" ou "erradas". Aliás, democracia é isso, e não a imposição da vontade da maioria, como tenho visto muitos dizerem. Da mesma forma, existem muitos argumentos a favor das privatizações, mas só os acata quem quer. E ninguém sai por aí querendo que os anti-privatização (os pró-orelhão hehehehe) se calem.

Agora, é claro que a Dilma sabe que não é a posição dela em relação ao aborto que vem sendo usada na campanha do Serra. Ela sabe disso, o marqueteiro dela sabe disso e o eleitor dela também sabe disso. O que vem sendo questionado pelo Serra é a mudança de opinião oportunista e eleitoreira. Todo mundo sabe, tá aí escancarado que o PT é a favor do aborto estatal irrestrito. E tem todo o direito de ser! Tá no site do partido, tá no PNDH3, em atas de congressos internos, pra quem quiser ver. E também é bem sabido a essas alturas que o PT tem, no seu regimento, cláusulas que prevêem a expulsão dos membros do partido que votarem contra o partido. Então das duas uma: ou a Dilma é favorável ao aborto, ou não é pessoalmente favorável mas por estar no partido vai ter que endossar a idéia sob pena de expulsão. De um jeito ou de outro, isso significa que em algum nível ela é a favor do aborto. Somem-se a isso as entrevistas que ela já deu defendendo o aborto e temos a resposta: a Dilma é a favor do aborto. Qual o problema nisso? Pra mim, nenhum. Ela tem o direito de ser a favor do que ela quiser. Esse não é um dos muitos motivos que me levam a achar que ela não é a melhor candidata. Mas que se reconheça o direito de quem é contra o aborto de escolher não votar nela. E ela que assuma isso de uma vez e arque com as conseqüências eleitorais. Vejam, se ela vai a público diariamente mentir que é contra o aborto e se dizer católica pra não perder votos, no que mais ela tá mentindo pra não perder votos? Sim, porque todo mundo sabe que ela é atéia "confessa". Eu não tenho nada contra presidentes ateus, inclusive o melhor que tivemos na era pós-regime o era. Mas respeito quem acha que um presidente deve ter uma fé.

Aliás, a questão nem é essa. Qualquer candidato a qualquer cargo tem que ter um mínimo de lisura moral. Boa conduta. Valores. Mentir é exatamente o oposto disso. Mentir pra ganhar uma eleição é ainda pior. E é nisso que a Dilma vem sendo cobrada, pela campanha do Serra, pelas lideranças religiosas e pelos eleitores. E com toda razão. Calúnia seria afirmarem que ela é a favor do aborto e ela ter se posicionado contra desde sempre. Não é o caso, e a tentativa de se fazer de vítima do candidato da oposição e de uma suposta "onda do mal" é um exagero e uma falsidade. É, essa sim, uma calúnia contra o Serra.

Ao longo do debate, o Serra fez perguntas sobre propostas da Dilma. Ela, quando respondeu, respondeu com passado: o que o PAC prometeu (porque fazer até agora não fez muito), o que o Lula fez e era isso. (Ah, não, ela também usou e abusou do verbo tergiversar, mesmo quando o Serra não estava tergiversando. E tentou colar nele a pecha de "mil caras" sem dizer por que exatamente ele teria mil caras.) O Serra tentou falar das propostas dele, mas a Dilma não fez uma pergunta sequer sobre o plano de governo dele, só falou do governo FHC e da rede de calúnias contra a pobre pessoa dela. Parece que ela não entendeu que não é porque ela vive à sombra do Lula que todo mundo vive à sombra de alguém. Uma pena. E um absurdo que saiam por aí dizendo que o Serra não quis discutir propostas. Tudo o que ele fez foi rebater as acusações e responder sobre o governo FHC, mas isso é culpa das perguntas que a Dilma fez, não da vontade dele.

Mas o mais genial de tudo foi a Dilma, nas considerações finais, lamentar o nível de baixaria na campanha. Ora, ontem quem trouxe a baixaria a tiracolo pro debate foi ela, que atravessou o Boechat a três por quatro e nem pra perguntar baixou o tom de voz. Nesse ponto o Serra deu um show, manteve a calma e a ponderação sem deixar de ser incisivo quando precisou. É o que se deveria espar de um chefe de estado.

Antes de encerrar esse post, quero fazer uma breve nota sobre "campanha civilizada". Tenho visto por aí muito material sujo contra a Dilma. Material com mentiras, invenções e exageros. Acho uma baixaria, não faço e não aprovo. Debate político tem que ter lógica e tem que ser da cintura pra cima. Me recuso a discutir com quem parte pra baixaria, pra agressão, pra ridicularização do oponente. Nesse sentido, a campanha do Serra tem sido exemplar. Não só o Serra em si, mas os movimentos de apoio, os políticos etc têm feito uma campanha limpa no twitter, no facebook e demais veículos. Sem baixaria, sem descer o nível, discutindo propostas e apontando civilizadamente certas inverdades ditas pela Dilma, especialmente em relação ao governo do Serra em São Paulo. Baixaria eu nunca vi. Nem pedidos de "vamos colocar X nos Trending Topics", sendo X uma ofensa à Dilma, como o @ptnacional tava fazendo ontem na hora do debate.

De onde saem então esses materiais sujos? Boa pergunta. Provavelmente de cidadãos comuns que nem são ligados a campanha nenhuma. O que eu não entendo é a imediata acusação, em vista desses materiais, à campanha do Serra. Vai ver é pelo princípio do espelho: se eu faço, os outros também fazem. Afinal, bordões como "Serra odeia nordestino", "PSDB é uma merda" e "quero que José Serra morra" são facilmente encontrados não só brotando dos twitters de gente comum, mas nos blogs que levam o nome da Dilma. Eu acompanho pelo menos dez blogs de apoio ao Serra e nunca li nada parecido com isso.

Moral da história: quer uma campanha limpa? Comece limpando a sua! Vale pra campanha e pra todos os setores da nossa vida.

P.S.: Não vou discutir nesse blog a questão do aborto estatal irrestrito. Acho que é um assunto independentemente complexo e que merece mais atenção. Outra hora eu me manifesto.

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